

O vagabundo cansado caminhou muito, não dormiu nada...
Carregava algumas mentiras para trocá-las por comida.
Negociou com o demônio sua vinda, em troca de seu sorriso.
Seu belo sorriso: como o demônio o invejava!
Prometeu a si mesmo que o conseguiria de volta, mas o que tinha por enquanto era algumas mentiras no seu bolso; mentiras que conseguiu fabricar sem muito esforço.
Na noite anterior, uma geladeira o convidou para uma conversa ao observar passar cabisbaixo pela solitária rua, na qual ela descansava sentada em uma pedra; geladeira fumava um charuto e cantarolava: Enjoy the silence do depeche mode. Ele a olhou com desconfiança e ela com um sorriso cínico. Repetia a parte mais grudenta da canção.
- Não lembras de mim? Costumava roubar de mim leite quando tua mãe lavava roupas no quintal. - Apresentou-se a geladeira
O vagabundo continuou a observá-la.
- Como caminhas pelo mundo do homem, sem o teu bom senso? Lembras que o perdeste? Sem ele estará perdido. Nessas terras andarás só e não aceitará conselho: agirás por impulso, se apaixonará facilmente e se tornará escravo de algo que julgarás erroneamente por amor.
O vagabundo olhou com desprezo a geladeira que feria seus pulmões com aquela fumaça nada agradável e voltou à estrada. A geladeira gritou seu nome.
-JACK!
Jack: era assim que seus amigos o chamavam. Os amigos? Os amigos? Amigos: palavra estranha para seu coração já tanto costurado por linhas de chochê.
- Jack, tome! Sei que está com fome.Guardo comigo o bom senso de um louco que amava as pessoas; não é um bom senso confiável, mas é melhor que nada disse a geladeira, oferecendo alimento.
O vagabundo aproximou-se da geladeira e comeu o bom senso que ela guardava em suas grades, mais por fome de que por qualquer coisa. Fome que, com suas garras, ainda não largavam de seu ombro, que pesava quando caminhava. O sol caia como se sangrasse o céu e o coração do vagabundo...
Guilherme Di França
Ontem o vagabundo viu uma estrela cadente, mas não encontrou nenhum pedido no bolso. Seu bolso estava rasgado e os pedidos tinham caído, se transformado
E quem veio atrás do vagabundo encontrou seus medos, sonhos... Mas não encontrou o seu amor. O vagabundo enterrou seu coração para que ele tornasse árvore. Pois as árvores conhecem as palavras de cada estação e as entendem com paciência.
Começou a chover e o vagabundo não armou seu guarda-chuva, pois nenhum guarda-chuva guarda águas que caem com liberdade.
Guilherme Di França
O Sol acordou como quem não dormira e acordara cansado, ainda com os lençóis que escondiam seu rosto e nublavam o céu.
Como o amanhecer doía na alma remendada daquele vagabundo. Seu coração apertava como se uma donzela de ferro o esmagasse, sentia o sangue manchar sua alma com uma cor que mal sabia o nome, mas para ele era triste como todo o amanhecer.
A geladeira observava o acordar do dia com a mesma ironia que observava o acordar do vagabundo.
-Jack, envernize seus pensamentos antes deles envelhecerem, para que envelheçam com brilho – pediu a geladeira com um sorriso no canto da boca.
Jack sentia fome. O alimento que comera na noite anterior o fez adormecer, mas não matara sua avidez por comida. Continuou olhando a geladeira com desprezo, não conseguia ser gentil mesmo que quisesse, pois o demônio agora era dono de seu sorriso. Sentia falta dele para enganar o sol da tristeza, que concebia de seu despertar. Levantou-se e se pôs a andar.
A geladeira parecia divertir-se com cada movimento do vagabundo. Jack vestia-se com uma ansiedade que perdia a cor de tão gasta.
O vagabundo andou rumo à estrada. Achara que tinha perdido tempo dormindo. Observou três caminhos a sua frente, um em direção ao norte, o outro ao oeste e um terceiro ao céu. A geladeira gritou antes dele dar a decisão.
- Jack não escolha caminhos que não tenham o número de seus pés, para que assim não cause calos neles ou os deixe folgados demais. Então Jack escolheu o caminho que levava ao céu e a geladeira, com um belo sorriso no rosto, pensou: número errado!
...
Guilherme Di França
Jack estava a andar por quase um dia sobre uma estrada escarpada. O sono e a fome discutiam por quem primeiro mereceria a atenção do vagabundo. A cada movimento percorrido o caminho tornava-se mais íngreme. Seus pés faziam uma dança que seu espírito não tinha ânimo para bailar. Uma balada alegre tocava ao longe e o incomodava a cada passagem doce de suas notas; ele não sabia o nome daquela música, mas já a ouvira antes, tinha certeza. Lembrava que na época ela descia por sua alma como um bom líquido doce descia por sua garganta, não só matando a sede, mas o cansaço da rotina.
Uma discussão fazia-se ouvir cobrindo a música, mas a peça musical foi quem chegou primeiro a seus ouvidos, creio que ao tentar vencer uma corrida desesperada contra aquele barulho que parecia irresoluto e irritante.
Sobre uma mesa redonda, um soturno tucano caolho, um gato negro robusto e debochado e um peixe com ar de altivez no íntimo de um aquário, contestavam sobre uma ária que tocava de uma Jukebox.
- Tarde demais, tarde demais! Não aceito desculpas por ser tão estúpido, seu gato idiota. – gritava o peixe com um olhar superior, mirando os dois de cima enquanto nadava de um lado para outro no pequeno aquário – Não o perdoarei por comparar uma Ária de Bach a qualquer sinfonia de Bethoven, e por sua inconstância em manter opiniões musicais sem nenhum aprofundamento teórico ou prático.
- A propósito peixe: quem te pediu desculpas? E pra teres um grande aprofundamento teórico ou prático como julgas, responda-me antes: que instrumento musical consegues tocar dentro deste limitado lugar que habitas; não ocupado apenas por sua arrogância sem cabimento? – perguntou o gato enquanto banhava-se com a língua, despreocupado. -Pois para trazer à baila uma sinfonia de Bethoven apresentada com um pronome “indefinido” como “qualquer”, suponho eu que o senhor deva ter um total conhecimento no assunto discutido para acentuar tal desdém. Eu mesmo só uso este pronome nesta condição quando estou numa situação parecida na qual exemplifico. Veja, alguém me pergunta: comeste o quê hoje? E eu respondo: Um peixe “qualquer”.
O peixe assustado arregalou os olhos para o gato que lambia os lábios com um sorriso sarcástico, o único habitante daquele minúsculo mundo aquático, começou a tremer e não era de frio sabia o gato.
- MEEEEEU DEEEEEUS – berrou o tucano com uma voz bem aguda – temos visitas ou a visita que nos tem?
O gato e o peixe acordaram do hesitante transe temporário e olharam em direção ao visitante.
- Oh, meu Deus! É um daqueles objetos que tem coração?- indagou o peixe ironicamente – Olha como ele anda; carrega consigo o castigo do amor, pobre otário!
- Um coração? – perguntou a ave caolha .– Será por isso que ele AMA?
- Não, é por isso que ele ANDA! – respondeu o gato ao ignorar o tucano e o peixe e a encarar, em seguida, desafiantemente, o vagabundo.
- Deus!Procuro Deus – disse Jack como se não falasse a anos: e a anos realmente não falava.
Então todos da mesa riram. O tucano mais exagerado riu e zombou com gritos.
- Posso te dar algo melhor?– disse o gato ao se conter e abrir um sorriso sem dentes e macabro num instante depois.
A chuva passou a correr na direção deles, e a canção que ela trazia era triste.
...
Guilherme Di França
7 - E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.
Saudação final do 11o manifesto.
Sucesso a quem ler e guardar este manifesto. Porque nós somos capazes. Todos nós, todos nós somos capazes.
Escrito por: Raul Seixas, Paulo Coelho, Sylvio Passos, Christina Oiticica, Toninho Buda, Ed Cavalcanti.
Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,
Ondas em convulsões, ondas em rebeldia,
Desespero do Mar, furiosa ventania,
Boca em fel dos tritões engasgada de pragas.
Velhas chagas do sol, ensangüentadas chagas
De ocasos purpurais de atroz melancolia,
Luas tristes, fatais, da atra mudez sombria
Da trágica ruína em vastidões pressagas.
Para onde tudo vai, para onde tudo voa,
Sumido, confundido, esboroado, à-toa,
No caos tremendo e nu dos tempo a rolar?
Que Nirvana genial há de engolir tudo isto -
- Mundos de Inferno e Céu, de Judas e de cristo,
Luas, chagas do sol e turbilhões do Mar?!